segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Argo: polêmica e premiação no Oscar 2013


A palavra "conturbação" seria o mínimo para explicar as nuances do filme até o dia do Oscar. Alfinetadas à Academia por parte do diretor Ben Affleck em outras premiações, problemas com o público e crítica iranianos reclamando de deturpação e tendenciamento dos fatos, com acusações de politicagem barata Pró-EUA pela crítica não só do Oriente Médio, mas também pela mundial, porém Argo se manteve firme, deu a volta por cima e Ben Affleck sagrou-se melhor produtor, com louvor, junto a George Clooney e Grant Heslov na noite da grande festa.
O início dessa saga até o dia 24 de fevereiro foi difícil. A subvalorização técnica em cima do filme foi grande demais e a superestimação de seu maior concorrente (Lincoln, de Spielberg) foi igualmente grandiosa, e parecia que as chances eram quase nulas. Só esqueceram que a Academia é cheia de surpresas, e que até mesmo grandes diretores, como o incomparável Steven Spielberg, perdem o tato de vez em quando e acabam pisando na bola abrindo espaço para novas estrelas.
Se você que ainda não viu vier me perguntar: "Argo é um filme tão maravilhoso assim?", eu vou responder: "Não, não é", e sabe o porquê? Porque não tem nada de esplêndido e surpreendente, mas é um filme com uma qualidade bastante estável. É bem filmado, coeso, parece que foi resumido ao que podia haver de melhor dentre os queridinhos de Hollywood e encantou tanto por misturar política, violência e entretenimento (e tudo mais que os estadunidenses amam) que acabou por merecer a glória popular e ocupar o lugar mais prestigiado da vitrine mundial do cinema. Mas não se engane que apenas de conveniência e sorte esse filme é composto, porque existem bons pontos para defender Argo entre os grandes, características notáveis dignas de cinema verdadeiro, sem sombra de dúvida.
"Esteticamente, o filme é muito pobre, e de qualquer maneira não esperamos outra coisa por parte do inimigo". Estas duras palavras são do ministro da Cultura e Orientação Islâmica, Mohammad Hosseini, que, claro, está no seu direito de réplica já que estadista nenhum gosta da difamação de sua terra pátria, mas ele se equivocou com esta afirmação. Como é possível notar no fim do filme, vemos que o storyboard de Argo foi baseado em relatos fotográficos verídicos da época, quase que imitando a realidade daqueles tempos na tela, se aproximando ao máximo da realidade das ruas mostrando um povo enfurecido atrás de desordem. Isso foi um ponto positivo em termos de construção da obra. O ponto negativo é a parte da politicagem. Enquanto o relato das ruas era quase que uma reprodução 100% fiel, é impossível sabermos o que acontecia indoor, por trás dos muros e paredes das embaixadas, e o que pareceu foi que a produção tentou passar uma ideia de "Tio Sam: o mocinho indefeso", uma alcunha para alienação digamos que bem deficiente hoje em dia, uma vez que o mundo inteiro já sabe que o jardim norte-americano não é mais tão cheiroso quanto se pensava no passado, fazendo com que essa tentativa de distorção ganhasse alguns pontos negativos para o filme, apesar de boa qualidade técnica.
Outra coisa sensacional em Argo é a super dupla John Goodman e Alan Arkin. Foi ótimo e muito engraçado ver um Arkin "badass" em cena, num papel hilariante junto ao também grande ator John Goodman (que já havia feito em 2012 outro grande personagem nos cinemas, no filme Flight de Robert Zemeckis). É impressionante como as cenas fluem bem com os dois na dianteira, dando um ar de descontração mesmo em um momento tão complicado da história dos Estados Unidos (e do Irã).
Para finalizar, ponto para a produção, ponto para o casting, ponto para o filme no geral, porque é merecido, porque com simplicidade conseguiu desbancar o histórico Lincoln, que preferiu primar pelo visual austero exagerado e pela lentidão de desenvolvimento, cansando o público com cenas desnecessárias e foco abalado por dicotomia e clichês de roteiro, trazendo sempre todos os holofotes unicamente para Daniel Day-Lewis e transformando o que deveria ser um clássico do cinema norte-americano no futuro, em mais um mero erro de execução.
Um ótimo filme com grandes atuações, e mais: um filme importante. Com o mínimo de sensibilidade é possível perceber a grande qualidade do longa, e ver que Argo merecia o melhor lugar do pódio, mas acho que o mundo todo, assim como eu, espera pela resposta já anunciada do Irã: uma superprodução para a mesma história, só que agora contando o outro lado da moeda. Vai ser no mínimo interessante. E para aqueles que se descabelam com o fato de não entenderem essa e outras tantas escolhas da Academia, vai uma dica: antes de julgar o Oscar, procure entender o Oscar, e compreender que é uma premiação que (infelizmente) não lida apenas com cinema e por isso (parafraseando uma amiga) a "Miss Obama" intrometeu-se no fim, dando o ar da graça para entregar o maior prêmio da noite.